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Depois de anos a viveram em Lisboa, a família Castro toma a decisão de vender o seu apartamento e ir viver para uma aconchegante casa no campo. A mudança implica a adaptação a uma nova realidade, completamente estranha para pais e principalmente, para os filhos.

João Henrique, o patriarca, de 45 anos, trabalha como designer gráfico. Sendo um profissional liberal, e com as facilidades da internet, não encontra nenhum inconveniente em manter-se afastado da grande cidade. Lúcia, sua mulher de 43 anos, é escritora. Além dos seus romances, escreve semanalmente para um jornal, uma coluna de opinião sobre literatura, não vendo assim também nenhum impedimento para isolar-se no campo. Pedro Luís, o filho de 19 anos, baterista num grupo de heavy metal, até acha porreiro estar num sítio onde não precisará mais levar com as reclamações dos vizinhos, quanto ao barulho do seu instrumento musical. Teresa, estudante de 14 anos, não tem outra opção senão acatar a decisão dos pais.

Uma mudança radical. Vendem o apartamento de Lisboa com o recheio e tencionam, aos poucos, mobilarem a casa com móveis rústicos, muito próprios numa decoração rural. Com o carro a abarrotar com os pertences pessoais de cada um, também comprimidos num reboque acoplado ao automóvel, saem de Lisboa em direcção à casa no campo. Dois quilómetros e meio antes de chegarem ao destino, ficam sem combustível. Resolvem chamar um táxi, mas nenhum dos telemóveis está com rede. Tomam a decisão de caminhar em direcção a casa, sem é claro, deixar de levar alguns dos seus pertences. Quando chegam a casa, já exaustos, Lúcia pede as chaves ao marido para poder abrir a porta. João Henrique dá-se conta de que se esqueceu das chaves no carro. Ainda sem rede no telemóvel, pensa em pedir boleia a um vizinho até ao carro, mas as casas próximas parecem desertas. Volta ao automóvel para buscar as chaves e quando chega de volta a casa, Pedro Luís já montou a sua bateria no quintal e está a tocá-la. Diz ao pai que queria fazer barulho para despertar a atenção dos vizinhos e nada, nem viva alma. Um bom sinal para ele, que poderá tocar o instrumento sem ser chateado e um mau sinal para o resto da família, que terá que aguentar o rapaz a tocar aquela porcaria sem qualquer restrição por parte dos vizinhos.

Ao entrarem na casa desprovida de móveis, lembram-se que os sacos cama ficaram no atrelado do carro. Ninguém se atreve a ir buscá-los. Só quando começa a anoitecer, percebem que não há luz eléctrica na casa. João Henrique diz a Lúcia que foi ela quem ficou de contactar a EDP. A mulher diz-lhe o contrário: Quem ficou de tratar do assunto foi ele. Não tivesse sido o João Henrique escuteiro, nunca teria conseguido acender uma fogueira no quintal.

E, enquanto o sono não vem, toda a família se reúne em volta da fogueira e dividem as batatas do único saco que Teresa trazia na sua mochila.

Se o primeiro dia no campo já se mostrou difícil, a noite não seria diferente. Espalhados pelo chão da casa, num breu quase completo, tentam aconchegar-se da melhor maneira para um descanso mais do que merecido. Mas como dormir com o barulho ensurdecedor dos grilos numa noite quente de verão?

Na manhã seguinte, João Henrique sai de casa em direcção ao carro e no meio do caminho pede boleia a um vizinho para ir buscar combustível a uma bomba. O vizinho amavelmente acede ao seu pedido. Como a mulher e a sogra do solícito homem estão a ocupar os dois lugares dos passageiros, resta a João Henrique viajar na carroçaria da carrinha, ao lado dos animais que estão a ser transportados na mesma.

Passam-se os dias e tudo parece começar a compor-se na casa e na vida da família. Ou quase tudo. Rede para os telemóveis, não há. Internet, menos ainda. “Uma pequena avaria na torre de transmissão que logo será resolvida”. Foi o que os informaram há cerca de um mês, quando chegaram à casa. Ao menos o belo televisor de plasma apanha perfeitamente os quatro canais, enquanto esperam pela instalação da antena parabólica. Pela terceira vez em apenas um mês, a polícia é chamada para “impedir” que Pedro Luís, continue com o barulho da bateria. “Mas são três da tarde”, rebate o rapaz. Em vão. A questão é que aquele som ensurdecedor faz com que os animais fiquem stressados e os vizinhos estão a reclamar. Pedro olha desconfiado para a irmã, que acabara de chegar, na sua bicicleta, do café onde afirma ter ido fazer uma chamada telefónica.

Nos dias que se seguem, enquanto João Henrique passa as tardes em Lisboa, onde consegue ter acesso à internet, Lúcia pede à filha que a ajude a tratar da horta. Em breve conta colher alguns legumes frescos e ver-se finalmente livre do perigo dos agro tóxicos. Teresa mostra-se completamente despreparada para lidar com o plantio das hortaliças. Pedro Luís recebe a visita dos cinco integrantes do seu grupo de heavy metal e decidem ir dar uma volta pelas redondezas, afim de “assustar” os velhotes com o visual talvez nunca visto por aquelas paragens. Ao contrário do que se poderia imaginar, os moradores da vila recebem-nos de maneira acolhedora, e propõem-se a ensiná-los tirar o leite das vacas, pisar as uvas para o fabrico do vinho, cuidar das ovelhas, colher os frutos nos pomares, entre outros trabalhos rurais. Os jovens mostram-se fascinados com a vida daquelas pessoas simples.

Com o problema da internet e dos telemóveis sanado, já com a casa toda mobilada, a família começa a entrar na rotina de viver no campo. Lúcia com a sua horta e a sua escrita, João Henrique com os seus trabalhos de grafismo, Teresa cada vez mais irritada por ter que acordar de madrugada para apanhar a camioneta que a levará até a escola e Pedro Luís que, entusiasmado, se torna pastor e passa o dia a cuidar de ovelhas.

Todas as noites, reúnem-se com os vizinhos no único café da aldeia e ficam a lembrar as histórias de quando viviam no stress da capital.

Aos poucos, todas aquelas lembranças transformam-se numa saudade incontrolável. Começam a sentir falta dos centros comerciais, das salas de cinema, dos teatros, do trânsito caótico… João Henrique começa a sentir que está a perder referências para o seu trabalho; Lúcia sente-se sem inspiração para escrever as suas histórias; Pedro Luís precisa da música para viver e Teresa… Teresa terá que fazer o que os pais decidirem.

Ao pressentirem que perderão os seus simpáticos vizinhos, os habitantes da vila reúnem-se e traçam um plano. Numa noite quando se dirige ao café no seu automóvel, a família Castro é surpreendida com uma série de outros carros a andarem lentamente em direcção ao centro da vila. Pedro Luís comenta: “Mas o que é que se passa? Tantos carros! Até parece que estamos em Lisboa.” A vila, está toda enfeitada, com as montras da mercearia, da padaria, do pequeno mercado e do café, assemelhando-se, numa proporção muito menor evidentemente, às montras dos centros comerciais de Lisboa. Os quatro integrantes do grupo de heavy metal de Pedro Luís começam a tocar no meio da rua, uma música barulhenta. Na bateria um dos moradores da vila relembra os tempos de quando tocava tambor na fanfarra da escola. Dentro do café, um palco improvisado onde alguns moradores realizam uma pequena peça de teatro. Mais tarde, num lençol esticado numa das paredes do café, a projecção de um filme caseiro. Um dos homens explica: “É o casamento do meu neto. Foi o único filme que consegui arranjar.” A noite termina com uma desgarrada e o agradecimento dos moradores da vila à família Castro. “Foi graças às vossas histórias, que pudemos, hoje, trazer um pouco da cidade até a nossa pacata vila”.

A família Castro nunca deixou de sentir saudades de Lisboa. Mas pela auto-estrada chega-se à capital num instantinho. E num instantinho se regressa ao sítio onde, graças ao carinho e à amizade das pessoas, acabaram por escolher para viver durante longos anos das suas vidas.