Menu
logo
  • RTP_E_depois_mateio_01
  • RTP_E_depois_mateio_02
  • RTP_E_depois_mateio_03
  • RTP_E_depois_mateio_04
  • RTP_E_depois_mateio_05
  • RTP_E_depois_mateio_06

Duas mulheres vítimas de violência doméstica trocam histórias através das grades de uma prisão e uma muda a vida da outra.

As mulheres circulam pelos corredores da prisão feminina de Tires. Umas com batas cinzentas com o número impresso no bolso, outras de pijama, outras vestidas com roupas normais. No meio delas, Catarina destaca-se pela enorme barriga de grávida. Tem um ar diferente. Parece iluminada.

Susana chega à prisão para entrevistar Catarina, uma mulher grávida que está presa pela morte do marido. Catarina era vítima de violência doméstica há anos e, um dia, após mais uma agressão, temendo perder a vida e o bebé, pegou numa faca e matou o marido. Foi condenada a uma pena de oito anos de prisão por homicídio simples.

Susana está a fazer uma tese sobre homicídio conjugal e soube do caso pelos jornais. Interessou-se por Catarina por esta ser professora e já estar grávida à data do homicídio. Catarina está detida há alguns meses, mas como todos a consideram uma pessoa doce e afável, as guardas permitem que ela dê uma ajuda às educadoras que estão à frente do jardim-de-infância da prisão.

Quando Susana conhece Catarina não consegue compreender como é que aquela mulher foi capaz de matar, mas à medida que Catarina lhe relata a sua história com Henrique, o homem que ela matou, Susana começa a perceber melhor o medo de Catarina e a enfrentar os seus próprios fantasmas. A verdade é que, mais do que uma tese, o que Susana procura naquela entrevista é a coragem para enfrentar o namorado e pôr fim à relação de violência que ela própria vive na pele.

Catarina começa por recordar como Henrique era encantador quando o conheceu. Bonito, educado, conquistou-a por ser um perfeito cavalheiro. Mas, com o passar do tempo, começou a exercer uma forte pressão psicológica sobre ela. Os ciúmes começaram a ser doentios e um dia acabou por lhe dar uma estalada. A agressão chocou tanto Catarina que ela acabou com ele. Mas Henrique pediu-lhe muitas desculpas, inundou-lhe a casa com flores e jurou que nunca mais levantaria a mão. Catarina acreditou nele, até porque ele era de uma família conhecida na região, e aquilo fora com certeza um momento de loucura. Acabou por lhe perdoar a agressão e aceitar o seu pedido de casamento.

Não quis ouvir as recomendações da mãe, que a avisou de que estava a meter-se num pesadelo e nem mesmo quando uma ex-namorada de Henrique a abordou e lhe contou que tinha acabado com ele porque lhe batia, Catarina quis acreditar que o seu príncipe encantado era, na verdade, um monstro.

A lua de mel foi inesquecível mas, assim que a rotina de casal se instalou, as discussões começaram. Por tudo e por coisa nenhuma. Um dia, Henrique não gostou da atenção que achou que Catarina estava a dar ao pai de um aluno e bateu-lhe assim que chegaram a casa. A sova foi tão grande que lhe partiu um braço. No hospital, Catarina disse à médica que tinha caído das escadas.

Susana começa a ficar perturbada com o relato de Catarina e esta apercebe-se que algo se passa com a investigadora. Susana tem umas estranhas nódoas negras no braço, mas Catarina não as vê, ou finge não ter dado por isso. A professora quer interromper o relato e desistir da entrevista, pois não é bom relembrar estas coisas, mas Susana insiste que é importante, o trabalho que ela está a fazer é para ajudar outras mulheres, para impedir que elas passem pelo que Catarina passou. Catarina diz que vai pensar no assunto.

Nessa noite, Susana janta com o namorado, Artur, e ele aconselha-a a desistir do seu estudo. Não lhe faz bem andar metida numa prisão o dia todo. Essas tipas que estão presas são todas lésbicas e têm doenças, argumenta. Susana tenta ripostar mas ele endurece a conversa até lhe dizer: “Porque é que não fazes um estudo mais fácil, sobre outro tema qualquer?”. Artur é paternalista com Susana e um pouco ciumento. Parece perigoso. Acaba por receber um telefonema de trabalho e ter de sair, avisando que a conversa não ficou por ali. Quando Susana diz que não vai desistir do estudo, Artur agarra-lhe o pulso com força, até ela gritar. Susana fica aliviada por o ver partir. Observa o pulso que tem novamente nódoas negras. É visível que ela tem medo dele.

Noutro dia, Catarina prossegue o seu relato e conta que o período em que andou com o braço partido foi o mais feliz da sua vida. Henrique tratava-a muito bem e jurou-lhe que nunca mais lhe voltaria a bater, que aquilo tinha sido só stress, mas ele próprio tinha crescido a ver o pai bater na mãe e a ter de esconder tudo para que as suas amigas não descobrissem nada. Henrique garantiu-lhe que não queria o mesmo para a sua própria família.

Catarina ficou muito sensibilizada com a história, pois desconhecia esse passado de violência na família do marido. Henrique contou-lhe que um dia se meteu entre o pai e a mãe para impedir a agressão. Esse momento acabou por levar à separação dos pais.

Henrique prometeu-lhe que, com a ajuda de Catarina, nunca mais lhe iria bater. “E eu acreditei”, conta Catarina. “Nós queremos sempre acreditar que as coisas vão mudar, que vamos viver felizes para sempre…” E decidiu que era altura de engravidar, agora que as coisas entre eles estavam melhores.

Mas, ao contrário do que Catarina esperava, a violência não terminou. Um dia, por causa de uma discussão sem importância, ele bateu-lhe com força na cabeça e ela desmaiou. Acordou no hospital, com o marido aflito junto a ela. “Tive medo de te perder”, disse-lhe Henrique. “Não aguentava viver sem ti… Fizeram-te muitos exames e análises e descobriram uma coisa maravilhosa… Estás grávida!”

Catarina retrai-se, sem saber o que pensar. Mas quando a Assistente Social vem falar com ela sobre violência doméstica, Catarina mente e diz que não houve agressão nenhuma. Chega a ser mal educada com a Assistente Social e a perguntar-lhe se acha que ela, professora e o marido, advogado, são como as pessoas que vivem nas barracas. Acaba por inventar que foi um livro que caiu da estante e lhe bateu na cabeça. A Assistente Social dá-lhe o número do apoio à vítima e diz-lhe para ela ter cuidado. Há muitos casos de agressão em famílias da classe média-alta. E as mulheres escondem tudo, por vergonha do estigma social. Catarina sente-se muito sozinha. Não tem coragem para contar a ninguém o que está a viver.

Susana chega a casa e encontra Artur à sua espera, à porta. Ela pergunta-lhe surpreendida o que é que ele está ali a fazer e Artur diz-lhe que queria ter a certeza que ela não lhe anda a mentir. Ela pede-lhe para ele não fazer uma cena ali. Ele diz para ela o deixar entrar. Ela diz que não. Ele insiste e aperta-lhe o braço. O Porteiro aparece e pergunta se há algum problema. Ela diz que o amigo dela já se ia embora. Artur afasta-se, contrariado. Susana respira de alívio e entra em casa.

No dia seguinte, Susana não para de receber mensagens de Artur, enquanto Catarina continua a contar-lhe a sua história. Desde o momento em que Henrique soube que ela estava grávida, começou a tratá-la muito bem. Mas, para Catarina, já era tarde demais. Já não conseguia confiar nele. Começou por tentar evitá-lo, até que o enfrentou e disse-lhe que queria o divórcio. Henrique aceitou mal a situação e disse-lhe que ela não o podia deixar logo agora que eles tinham tudo para serem felizes. Henrique ia passar uns dias fora, numa viagem de negócios, e adiou a conversa para quando regressasse.

Catarina aproveitou aqueles dias fora para se organizar. Procurou uma associação de apoio à vítima e conseguiu ajuda. Estava a fazer a mala para sair de casa quando ele chegou e a apanhou em flagrante. Bateu-lhe e depois desatou a chorar. “Olha o que tu me obrigas a fazer a ti e ao nosso filho!”, gritou-lhe. Quando ele se virou para se ir embora, já após a agressão, Catarina agarrou numa faca. “E depois matei-o”, conta Catarina a Susana com uma calma gelada.

Após a confissão final, Catarina emociona-se. Sabe que destruiu a sua vida e que marcou para sempre a da sua bebé. A emoção leva-a a entrar em trabalho de parto e Susana chama as guardas. Susana vai com ela até ao hospital e acompanha-a no parto. Depois da bebé nascer, Catarina diz a Susana para não se transformar nela. “Ainda vais a tempo de acabar com isso”, diz-lhe, com a filha nos braços, apontando para o telemóvel e para os braços marcados. Susana chora, envergonhada.

Susana despede-se de Catarina. Em seguida, entra numa esquadra e faz queixa do namorado.