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Adília vive sozinha com as suas memórias. Depois de um assalto violento aceita receber em casa uma estudante universitária.

Adília, 55 anos de idade, foi em tempos uma pianista de sucesso, dando recitais em Portugal e no estrangeiro. Viajada, cosmopolita, casara cedo e a sua vida esteve indelevelmente ligada à sua família, seus admiradores incondicionais e fonte da sua inspiração. Mas tudo muda na sua vida quando, uma certa noite após a festa de estreia de um dos seus recitais, conduz o automóvel do marido (que tinha bebido uns copos a mais) até casa, dando boleia ao filho do casal. Cansada devido a semanas e semanas de ensaios, Adília adormece ao volante e despista-se, sobrevivendo ao acidente, mas acabando o marido e o filho por morrerem. Traumatizada, abandona a carreira e refugia-se em casa, que torna quase uma mausoléu ao marido e filho falecidos. Aos poucos, vai quebrando todos os laços que a uniam à sociedade, vivendo para as recordações no seu apartamento, onde passa os dias a ver antigas fotografias da sua família. O seu único ponto de contacto com o mundo é a filha, modelo profissional, que a visita de vez em quando (não a visita mais porque a mãe se recusa muitas vezes a abrir-lhe a porta, pois quer estar fechada no seu mundo). Durante as visitas, a filha tenta convencer a mãe a deixar de se culpar pelo acidente e a “voltar a viver”, o que Adília recusa. Quando o marido da filha aceita um emprego numa multinacional estrangeira e esta muda-se para Londres, perseguindo a internacionalização da sua carreira de modelo, a última ponte de Adília com o mundo fecha-se.

Entretanto, Adília vive cada vez mais para as suas recordações, lembrando conversas com o marido que tivera naquela casa, quando era feliz (e que vemos em flash-back). Aos poucos, porém, a ténue distância entre as recordações e a realidade começa a esbater-se, devido à solidão e ao trauma motivado pela morte do seu gato, fiel companheiro. Nessa altura, Adília dá por si, várias vezes, a imaginar que o falecido marido ainda está com ela. A situação parece melhorar um pouco quando uma nova vizinha, a Maria, insiste em visitá-la. Adília estabelece uma relação de amizade com Maria, e costuma passar alguns serões com ela a ver televisão e a falar sobre o passado. A vizinha revela-se um ombro amigo no qual pode chorar.

Uma noite, porém, a casa de Adília é assaltada, como tantas vezes acontece às pessoas desprotegidas que vivem sozinhas. O ladrão agride-a e deixa-a quase morta, na cozinha. Adília acaba no hospital, onde uma velha amiga (também música) a vai ver, uma amiga que tentara sempre visitá-la, sem sucesso. A amiga diz-lhe que aquela situação não pode continuar, mas Adília não concorda. A única preocupação de Adília é saber se a sua vizinha está bem, pois o ladrão poderia ter passado pela sua casa antes. Então, a amiga, pasmada com o que Adília está a dizer, explica-lhe que ela não tem nenhuma nova vizinha, o apartamento do lado está vago há meses. Adília começa por não querer acreditar, mas percebe aos poucos que a solidão, afinal, está a enlouquecê-la.

A contra-gosto, aceita a sugestão da amiga, que conhecia o projecto ACONCHEGO de combate à solidão que passa pelo alojamento gratuito em casa de pessoas sós de estudantes universitários. Começa por receber com alguma frieza em sua casa uma jovem estudante com um piercing que anda sempre vestida de preto, como uma hacker, algo que incomoda a conservadora Adília. O choque de gerações e mundividências entre ambas é evidente, mas a simpatia da jovem acaba por aproximá-las aos poucos. Quando Adília deixa de ser “visitada” pelo marido, percebe que a sua sanidade está a voltar. A jovem substituiu, de alguma maneira, o buraco emocional que a morte do marido e do filho lhe deixou. Mas a jovem consegue entrar na segunda fase de acesso ao ensino superior para o curso que realmente desejava, o que faz com que volte à sua terra, o Porto. Adília, mais uma vez, fica sozinha. Desta vez para sempre.